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Janela com cortinas entreabertas. Apoio do cálice e moldura dos vinhedos. Tudo que gira na vitrola.
Taça de vinho tinto, sem gota venenosa. Pérola e álcool evaporam antes de escoar para os sonhos.
Os vales suspensos em estacas castanhas como xale de inverno, bordado com desenhos complementares de coleópteros paralisados. Ilusão de movimento quando o vento desliza sobre a trama esticada ao sol e os besouros parecem voar em carreira.
Olho fechado. Não fossem as asas quitinosas com sua sensação de carvão úmido, o outro também se fecharia.
Os lábios digerem a palavra branca e os pés estão brancos.
O branco do corpo e o negro da falsa estrada solta no ar.
O caminho chuvisca árvores rápidas, seiva âmbar de rio coagulado em leito quase morto. Mais perto, mais perto: o filete na casca repleto de formigas vermelhas. Pequenos cacos violetas pela respiração entrecortada do céu.
Eloqüência. Ainda há água.
Quadro, cena, recanto mental. Para fugir sepulcro para cantar escuro para adubar o interior do sangue com qualquer coisa que não tenha gosto de sal e açúcar diluídos. Mineral plasma bruto sem que o estanquem sem que o julguem sem que o entendam. Amor não escrito. Cascos de fogo silenciosos cauterizando desfiladeiros. Corvo tão azul em redoma frágil, de vidro. O azul é dor e ninguém percebe. O azul não existe.
Silêncio. Não há pássaro.
Há o plâncton de luz mais táctil onde as pupilas viajam a noite de constelação terrena.
Estilhaçar. É hora de acordar o selo. A carta voa. As frases se rasgam.
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Na caixa postal
Escrito por Bellatrix em 22.2.09 0 comentários
Coração Selado de Raios
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Não há nada em tua sensibilidade de planícies para o sustento do encontro elétrico que te insisto dizer.
Tua sobriedade de rocha primitiva aprisiona os cardumes errantes.
Tua boca cor de hóstia se fecha para o delírio das sibilas.
Teu sangue de pactos compacta a cavalgada voadora das salinas.
Teu séquito linear paralisa o giro dos moinhos gritantes.
E se não arremessa livremente os nervos no comboio turbulento das montanhas, não há mais nada que posso te dizer.
A não ser um badalar de vagas dentro dos diamantes soterrados.
Quando o relâmpago rasga o ventre do húmus esvoaçando o anil do sol.
Quando a rosa do deserto é vista, resplandecendo na dança perigosa dos raios.
(entre o animus e o self)
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Escrito por Bellatrix em 31.1.09 0 comentários
Your lips a magic world
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Eu sentia este peso de existência pressionando primeiramente as têmporas. Depois se alastrava pela região superior do corpo, como se fosse esmagar a musculatura da face, forçando o estiramento de um sorriso ou a avalanche de uma palavra. Um peso sobre humano, sobre a minha humanidade. Sempre pensei que fosse assim o afogamento em uma água profunda e carregada de sal. Então surgia uma dor, como se uma navalha nascesse do fundo, rasgando a massa corporal. Um casulo visto por dentro: era assim a nítida sensação que me vinha. Sem asas, porque não me vinha força para se livrar da gravidade. Eu mergulhava ainda mais nesta tonelada sensitiva e ia ficando cada vez mais massivo. Pensava na lâmina quinze e nos sonhos de mar invasivo. E o gume de dentro cada vez mais afiado, buscando o sangue interior. Fora, nenhuma gota. Só o marulho de onda brusca contra pedras altíssimas.
E percebi que esta lunática decadência que me invocava nos momentos em que mais invocava o mundo era e é perfeitamente cabível para descrever o beijo fugidio, e de fora, que recebi. O beijo que está além da necessidade corporal. O beijo do espírito, a suprema oração do diálogo febril. E isto é descer ao inferno de si e do outro, enquanto os anjos andróginos disputam o céu.
E o que é isto? Nossos mil palhaços acordados por dentro, esperando platéias sorridentes. O corpo da lágrima maquiada, tão fingida e tão reveladora da íntima verdade.
É um choro, não um riso. É esmagador e é bom. Humano, demasiadamente humano.
Ainda espero-te, gota densa, desenhada, pronunciada. Rascunho de deus em lábios flamejantes.
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Escrito por Bellatrix em 22.11.08 0 comentários
Atlânticos

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Com que palavras chegaria até ele. Era o que pensava, dentro do corredor alagado. Era raso e da cor das folhas em decomposição. Como as pupilas dele, depois da noite. Com seixos e casas. Não eram reflexos, eu realmente via os casarios por dentro daquelas águas, vielas inteiras com árvores e varandas com balanços de madeira rústica. Como as fotografias dele, depois da revelação em sépia, aqueles truques de fantasias químicas na escrita da luz. Antes, eram coloridas: azuis e verdes e corais como a escama dos peixes.
A canoa leve pintada de turquesa antiga, com rumo sinuoso, já que a correnteza subia pelas nódoas dos dedos do barqueiro. Uma entidade, a correnteza. Também via a rendição da carne do barqueiro para a estrada doce do braço de rio. Curvava-se para as águas sem precisar ajoelhar-se e as chuvas subiam pelo seu sangue, junto com a seiva de uma flor castanha selada no leito. O rio saía de sua boca em afluentes de cor mais clara, onde o sol do leste desembocava pelas manhãs de abril.
Mas continuávamos pelo líquido mais ocre, eu e o rio-barqueiro. Um pouco mais amargo e de contos mais sombreados. Como as frases dele, antes da explosão do dia.
Ele, que eu temia como um cataclismo desproporcional, como uma fronteira sem bosques de papiros, nem arandelas fictícias, nem capelas com vitrais medievais. Sem rosa-dos-ventos ou observatórios de estrelas.
Pensava a palavra nascente na fonte acima de toda aquela planície. A palavra de gelo fresco sonhado pelo orvalho das folhagens. E a queda. Primeiro, serena. Um fio prateado no dorso do platô rochoso. Depois a precipitação abrupta no coágulo de líquens da epiderme do vale.
Eu estava no meio, e pensava esta palavra sem poeira, pois estava dentro da barca, com os pés em transe na temperatura da cidade fluvial. Os pés enguia, anêmonas, caravelas riscando o poente e passeando cruzadas na paisagem do rio... o braço de rio e os pés das caravelas e a mão tentando alçar as cidadelas do olhar dele, as varandas observatórios, os luzeiros cintilando sobre os seixos.
Eu submergia no meio da palavra e lá na frente, bem invadido de céus, a fictícia fronteira: onde a cidade não se repete, então não há bosque, nem vitral e não há rosa e vento que caia em sépia na pupila revolta e funda e rasteira do sempre em chagas abertas nas mãos e nos pés que o sal refaz.
E a palavra em decomposição nas águas, até turvar de quase-maio a frase de uma oceânica chegada.
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Escrito por Bellatrix em 25.4.08 2 comentários
(N)ossos, os equinócios.
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Carmina morte carent
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Precessão do Colosso de Rhodes:
(fragmento da titânica foz)
Eu ouço o retorno. Eu me volto.
Para que nos encontremos, que tu sejas o sol e que o caminho seja fausto. Podem existir outras trajetórias, se preferir. Mas o imaculado, invictus, reside na aparente diadema que abarca o mundo visível e o concretiza no centro da grande cruz. Margeado pelas estrelas reais.
Ao amanhecer, que o fogo seja brando, o primordial que ainda não aquece.
No meio do dia, que diga a que veio.
Nos ocidentes, que dialoguemos, ensaiando a liberta sensação que nos permite o sinônimo, como o arquipélago e a tectônica dilacerada.
E no zênite da obscuridade, o meio da noite no coração negro, que as cadentes risquem seus alfabetos de portais.
Pronunciei o eixo cravado no corpo de pérsias e perseus. E vi a terra ardente no galope de Pégasus, quando o céu é de ouro e a neblina se abre com o amarelo dos giros de sóis.
Devo persistir: o outono já se tinge de cetros e o plátano agita-se com a saliva do monarca decaído. Seu coração norteado pelo cruzeiro. Antiqüíssimo bóreas.
Se tu vieres, que seja solar. Que seja solar. Estou na babel sideral, onde melhor circulo. Onde é extrema, a audição. Ouço-te, se solaris. Podem nos dizer mil eclipses, mas eu testemunho o renascer heliacal. Tua voz no maremoto, e a via-láctea.
Carmine di superi placantur, carmine Manes.
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The Minerva Britanna Project
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Escrito por Bellatrix em 15.2.08 3 comentários
Ritmos sálmicos, o canto do poético interno.
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Meu inferno é um outro. Sepulcro na veia das fomes. Não ruge no abandono. Ativo, se me exortas. Quem já o chamou por este nome? Régio, litúrgico, vestido com a dinâmica do cosmos. Em salmos, escrito: na cruz e na porta. Fendido, no sóbrio e na prece, dos fogos.
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Escrito por Bellatrix em 8.2.08 3 comentários
Vetiver de Circe

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O que costumava ser-me profecia virou silabário contrário. Quando me ditava a madrugada como seriam as glórias da manhã, os arcos sombrios de belladonas no corpo dos pântanos. Por onde caminhava, como terreno pleno, como oratório imaculado. Sem erros, porque o seguia às cegas, às escuras. Intuindo a luz incitada, que existia mascarada no sabre das perambulações mais obscuras.
Deu-se a inversão. E porque o aceitava como o moribundo que ressuscita no placebo, como a lunação gera a maré, deu-se a transfusão de dons. Alçaram-me os adjetivos, as proclamações, o patchouly desprendido quando o elemental atua, quando se transubstancia no crédito das frases possuídas de abismo e imensidão.
Deu-se a transfusão. Saíam-me apocalipses a descrever sua incansável pantomima. Quanto ao meu imaginário, nada mais conjugava. Tornei-me a previdente.
Não há regozijo. Não quis perceber o sentido, quando o gritei, no meio do escuro, no meio da cegueira, no centro perdido da febre abençoada que havia me doado às farsas. Agora singra torpe, às farpas, embotado de vapores adocicados. Não reconhece no próprio sangue a maceração das dramaturgias, o óleo agreste das lacunas perdidas, possessas de savanas e sublimações.
Eu o digo, às máscaras: talvez não consiga voltar. Talvez não consiga voltar, sem vetiver.
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Escrito por Bellatrix em 6.2.08 0 comentários
